02/01/11

Morrer Como um Homem

"Morrer Como um Homem", de João Pedro Rodrigues, foi considerado um dos 10 melhores filmes do ano pela revista francesa Cahiers du Cinèma (em 7º lugar). “Morrer como um Homem" é um filme perturbador, que vai do sublime ao mediano em menos de nada, uma tragédia portuguesa, o nosso triste fado, o melodrama do desgraçadinho, coitadinho e pobrezinho - ainda por cima travesti e homossexual, uma tragédia existencialista do amor abnegado e transcendente. Contudo, João Pedro Rodrigues faz filmes que não se parecem com nenhuns outros filmes e este é um filme que atinge alvos: amor e morte, sexo transgressivo e violência, fé e a religião, o desalento total dos personagens - ou não fossem esses mesmos portugueses. Diz o realizador que é uma tragédia, uma tragédia clássica, um personagem que não consegue fugir ao seu próprio destino. Podia ser, não fosse o filme demorar-se tanto em pormenores e em tantas cantorias. Cada filme seguinte de João Pedro Rodrigues é um melhor filme e fica-se assim sempre à espera do próximo.

08/12/10

Poetry





“Poetry”, Lee Chang-dong, outra boa surpresa depois de “Des Hommes et des Dieux”, Xavier Beauvois. Estiveram os dois em competição em Cannes e, estranhamente, começo a perceber porque é que a Palma de Ouro foi atribuída ainda a um outro terceiro – o tão estranho “Uncle Boonmee, recalls his many past lives”, Apichatpong Weerasethakul.

“Poetry” é a comovente história de uma avó que se interessa por poesia ao mesmo tempo que descobre que tem Alzheimer e que o neto de 16 anos (de quem cuida sozinha) poderá estar envolvido numa coisa muito má. A personagem - estranha personagem que nunca se chega a descobrir (ela e nós) - a par da descoberta da poesia descobre também a imoralidade do que a rodeia e de que nem tudo são como as flores que como ela diz: "amo-as e fico feliz só por vê-las". Nem tudo é assim, ou quase nada é assim, ou é mesmo muito difícil que as coisas sejam assim. Como diz o professor de poesia no filme: “não é difícil escrever um poema; difícil é ter coração para o escrever”. O difícil sempre em tudo é não sermos verdadeiros e deixarmos que as coisas piores se sobreponham às melhores. É uma evidência que estamos sempre a esquecer. Este é um filme que procura descobertas mas onde se descobre muito pouco ou quase nada. Este é um filme muito longo e às vezes demasiado estático e previsível. Mesmo assim, é um longo e bonito poema.


“Esta é uma época em que a poesia está a morrer. Alguns lamentam essa perda, outros dizem que ela merece morrer. Ainda assim, as pessoas continuam a ler e escrever poesia. E uma pergunta que faço como cineasta: o que significa fazer filmes num tempo em que os filmes estão a morrer?”
Lee Chang-dong

28/11/10

Cidade Baixa

Pois, e porque há sempre coisas a descobrir, mais um filme e um muito interessante filme e já de 2005. O cinema é inesgotável, os temas a explorar nunca acabam, os interesses de cada um poderão ser os mais divergentes. Aqui, no filme, uma questão: será que pode existir paixão, desejo, amor de uma por duas pessoas ao mesmo tempo e dessas duas pela primeira? A resposta não existe mas a perspectiva deste filme “Cidade Baixa” é muito interessante. "Cidade Baixa" é um filme forte que revela a energia e o realismo do cinema brasileiro, com excelentes interpretações - Alice Braga, Lázaro Ramos, Wagner Moura – e com muitas cenas filmadas sem quaisquer preconceitos, espírito muito aberto, a um ritmo muito acelerado. Ainda, claro, Salvador da Bahia. Local: Cidade Baixa.

“Cidade Baixa se passa em um universo em que as pessoas não vivem “discutindo as relações”, elas trepam quando têm desejo e saem na porrada quando vêem que seu desejo foi contrariado.”
Sérgio Machado, 2005

14/11/10

Des Hommes et des Dieux

Finalmente, depois do "O Laço Branco", um filme que mexeu com todas as minhas mais profundas emoções e comoções e perturbações e montões de pões (que são todas aquelas coisas que põem nas nossas pessoas coisas muito fortes, acabei de adicionar o significado de uma palavra à língua). Um filme libertador (em todos os sentidos), com um belo título – “Dos Homens e dos Deuses” - que busca mais as emoções humanas, as dos Homens, do que as de Deus, sem as explicações divinas explícitas, embora O Deus esteja sempre presente e pareçam ser sempre explicitas essas explicações divinas. Um filme que emociona católicos, islâmicos, ateus, ou seja lá quem for, em todos aqueles em que acreditem em que só há um acreditar: o amor em todas as suas dimensões. Um filme que nos enche o peito. E enche-nos o peito porque há Homens que fazem coisas porque acreditam nelas, sem pedir nada em troca, sem procura do heroísmo, apenas na busca de um bem estar interior pleno. Lambert Wilson (Frère Christian), Michael Lonsdale (Frère Luc), Olivier Rabourdin (Frère Christophe), Philippe Laudenbach (Frère Célestin), Jacques Herlin (Frère Amédée), Loic Pichon (Frère Jean-Pierre ), Xavier Maly (Frère Michel ), Jean-Marie Frin (Frère Paul) enchem-nos (é sempre essa a palavra) o coração. Xavier Beauvois, o realizador, procurou a essência da história sem se preocupar nos pormenores dos factos mas nos esclarecimentos dos pensamentos. Um homem que nos transporta às nossas entranhas merece ser observado com muita atenção. E é este o caso. Este filme foi o Grande Prémio do Júri de Cannes 2010, é o filme que representará a França na candidatura ao "Oscar dos filmes estrangeiros" e é um filme que merece especialíssima atenção. Como disse a Rosário Coimbra no final do filme há aqui uma das mais belas cenas que eu (e ela) já vi (vimos) no cinema em toda a minha (nossa) vida. Os monges, à volta da mesa, filmados um a um, com uma expressão que oscila da extrema felicidade, segue para a angústia e termina com uma expressão de profunda tristeza e lágrimas em todos os olhos daqueles monges. E que tristíssimas lágrimas! E que magnificas expressões! O filme parte de uma história verídica. Mas, como no filme, não me apetece muito dar-lhe importância; afinal todas estas histórias de homens anónimos caem no esquecimento e o mais valioso é sempre perceber – e seja lá quem for – que existem pessoas grandiosas. “Entre a Terra e o Céu”. Ou só mesmo aqui na Terra.

07/11/10

La Nana

"A Criada", em português, é um termo usado ainda neste século, aliás, e se calhar, mais do que nunca. E este filme é sobretudo o estudo do comportamento de quem cuida dos outros antes de cuidar de si próprio. E de alguém que faz disso a sua vida inteira. E isso pode ter as mais diversas consequências e nunca as mais construtivas para as partes envolvidas. Tudo isto está expresso no rosto da criada (Catalina Saavedra). Uma tristeza profunda, um olhar impessoal, parado e vazio, numa permanência numa casa há mais de vintes anos, numa ausência de sentimentos por si e, ao fim ao cabo, também para os outros apesar de viver para eles. E numa fúria contida capaz de explodir a qualquer momento. Vale a pena dar uma espreitadela neste filme e na câmara que vai observando todos os movimentos e emoções de "La Nana".

10/10/10

"Antes um final angustiado do que uma vida de angústia”. Foi Ahmad que, ao dizer isto, involuntariamente revelou a Elly o exacto sentido do seu futuro, para ela sem alternativas num “establishment” que secundariza e estigmatiza as mulheres. Em termos lineares, “Darbareye Elly” (em português dará qualquer coisa como “À procura de Elly”) é a história de um grupo de amigos que passa um fim de semana numa casa junto ao mar. Todos eles e todos os seus hábitos são banais e em cada pormenor revelam as dimensões afectivas, sociais e humanistas típicas de “gente a sério” : não fossem os “hijab” das mulheres e o aspecto decrépito da casa de férias e poderíamos estar a contemplar um quadro banal de alguns europeus em férias. E mais alguns detalhes, revelados subtilmente ao longo do filme, como a agressão de Amir à sua mulher Sapideh, em estado de desespero por não saber o que ela sabe e quanto sabe sobre o desaparecimento de Elly: o momento em que os modelos morais islâmicos falam mais alto do que a razão através dos estados de alma. O guião é magnífico: o mistério revela-se a conta-gotas e tanto nos confunde nas pistas como nos põe a adivinhar sobre o que de facto aconteceu, até que percebemos que só uma hipótese é possível: a liberdade. Tudo relevado sem facilidades e sem maniqueísmos. Para coroar, o filme tem uma outra vantagem apreciável: é um excelente “espanta-preconceitos” para quem olha o Irão do “alto da Europa. “Tudo isto estava escrito. Ninguém tem culpa.”. Urso de Prata no Festival de Berlim. Um must-see.

08/10/10

Lola

Depois de "Kinatay" e do espectáculo de horror a que ali assisti, ouvi dizer que "Lola", de Brillante Mendoza, era uma espécie de redenção do cineasta ao seu filme anterior, com os filipinos e com o público em geral. Pois para também a mim me redimir ("Kinatay" é mesmo terrível e eu gostei) vi ontem "Lola”. Não há sangue, não há esventramento, não há um espectáculo sanguinário como no anterior. Mas há ainda maior tristeza, muita água (parece que nos vamos afogar), sofrimentos e desilusões incomensuráveis. Não me senti redimido. Não me senti aliviado. Senti uma profunda angustia. Não sei se algum dia quero ir a Manila. Acho mesmo que não (curioso, parece que já conheço aquelas ruas …). De qualquer forma, percebi que Brillante Mendoza é de uma sensibilidade superior. E isso é sempre tão raro.

06/10/10

Kinatay

“Kinatay” significa carnificina em filipino e será um esventramento literal e uma lição das trevas, culminando na violação colectiva e no massacre. É este o tema do filme com esse nome, “Kinatay, Brillante Mendoza, 2009, acabado de sair em DVD. Preparem-se, é um filme para maiores de dezoito anos e uns dezoito anos muito bem constituídos, organizados e estruturados. Caso contrário, é o caos, é caso para não aguentar o “murro no estômago”.
Podia começar por dizer-se, como se lê algures no filme, que uma vez perdida a integridade é para sempre. Acredito que nem sempre, mas só porque acredito na redenção. Acredito que poderá nunca acontecer pois há lugares onde isso poderá não ser possível. E neste lugar - onde acontecem estas coisas - parece que isso não existe.
A personagem principal, Peping, vinte anos, acabado de casar, com um filho de sete meses, aceita uma oferta de trabalho para ganhar algum dinheiro no próprio dia do seu casamento, na madrugada que se segue a esse dia, e vai assistir a uma verdadeira tortura, a uma matança, a um esquartejamento, e vai mostra-nos tudo isso a nós, espectadores, que o vamos acompanhar - só vemos aquilo que os olhos dele vêem.
Estamos em Manila, num nível de extrema pobreza, onde impera o caos, o lixo, o quotidiano filipino é-nos logo mostrado como nada de muito bonito mas onde, no inicio parece, se conseguirá viver com uma certa tranquilidade e harmonia. Um casal muito jovem, feliz, com um filho de sete meses, vai casar e tudo nos parece bem. Logo depois, entramos na noite de Manila, com Peping e um grupo de policias e passamos a assistir ao verdadeiro horror. Ao longo da noite, a missão em que Peping se vê envolvido consiste em dar uma grande lição a uma prostituta. E que lição! Ela vai ser espancada, violada, assassinada com facas, esventrada, mutilada e os seus pedaços vão ser espalhados pela cidade no meio do lixo, do caos, sem que ninguém se espante muito com esse facto (alguém diz, impávido e sereno, quando descobre a cabeça da mulher: “não se percebe, nos últimos tempos só encontramos pedaços de corpos pela cidade”).
E aqui não há integridade, não há redenção, há um desfilar de actos bárbaros, sem dó nem piedade, uma frieza implacável. A excepção é a personagem principal, Peping, que não recusa a tal oferta de trabalho para ganhar algum dinheiro. Parece que ele, também ele, não se irá salvar. Ele próprio, irá ser como o grupo com quem passou aquela noite. Para ele a salvação não vai chegar, parece. Ou a chegar será de acordo com aquelas regras.
Tudo é irremediavelmente mau quando se vê este filme. É como alguém nos dissesse (neste caso, o realizador) : o mundo é mau, o mundo é muito mau, e por ser tão mau olhem para isto, vejam bem isto! Será que foi isto que quis dizer Brillante Mendoza, com este “Kinatay”, melhor realizador em Cannes 2009 ? A mim parece-me que sim. Só não sei se isso é mau ou se às vezes é bom ver que existem coisas realmente más.

“Quero que os espectadores sintam o horror dentro da cabeça do meu personagem. Quero que o sigam de perto, que observem e pensem, e se sintam realmente perturbados.”
Brillante Mendoza

05/08/10

"J´ai tué ma mère"

Depois de "Afterschool" - um filme realizado por um jovem pequeno adulto americano brasileiro de nome António Campos - outra boa surpresa: "J´ai tué ma mère", Xavier Dolan. Em vez de questionar sobre este filme será melhor vasculhar sobre o que é que vem a seguir a este, saber quem é este rapaz, estar atento a Xavier Dolan. Para já, e assim de repente, escreveu este filme com 17 anos, esteve o ano passado em Cannes com este filme na secção Un Certain Regard, já fez outro filme chamado "Les Amours Imaginaires" e recebeu vários prémios pelo primeiro. Eu gostei. Eu vou querer ver e ouvir o que tem para dizer daqui para adiante Xavier Dolan. Gosto de pessoas inteligentes. Tudo menos o atavismo que existe por aí. Diz ele que ainda não tem muito para dizer porque viveu pouco. Digo eu que já vi outros viverem alguma coisa e que não sabem dizer nada.

25/07/10

Wild Horses !

A propósito da extensão do nosso parco conhecimento, da “obrigatoriedade” inexprimível de querer conhecer muito, ou, quem sabe o muito que para outros significa nada, ou ainda, o que nós aprendemos pouco ou nada é para os outros só para nós, o que já por si importa pois tornamo-nos maiores, as coisas estão longe de ser... todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos apresentam. A maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos susceptíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte: seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efémera. Wild Horses!

Adaptação muito livre de Rainer Maria Rilke