"A Criada", em português, é um termo usado ainda neste século, aliás, e se calhar, mais do que nunca. E este filme é sobretudo o estudo do comportamento de quem cuida dos outros antes de cuidar de si próprio. E de alguém que faz disso a sua vida inteira. E isso pode ter as mais diversas consequências e nunca as mais construtivas para as partes envolvidas. Tudo isto está expresso no rosto da criada (Catalina Saavedra). Uma tristeza profunda, um olhar impessoal, parado e vazio, numa permanência numa casa há mais de vintes anos, numa ausência de sentimentos por si e, ao fim ao cabo, também para os outros apesar de viver para eles. E numa fúria contida capaz de explodir a qualquer momento. Vale a pena dar uma espreitadela neste filme e na câmara que vai observando todos os movimentos e emoções de "La Nana".
07/11/10
10/10/10
"Antes um final angustiado do que uma vida de angústia”. Foi Ahmad que, ao dizer isto, involuntariamente revelou a Elly o exacto sentido do seu futuro, para ela sem alternativas num “establishment” que secundariza e estigmatiza as mulheres. Em termos lineares, “Darbareye Elly” (em português dará qualquer coisa como “À procura de Elly”) é a história de um grupo de amigos que passa um fim de semana numa casa junto ao mar. Todos eles e todos os seus hábitos são banais e em cada pormenor revelam as dimensões afectivas, sociais e humanistas típicas de “gente a sério” : não fossem os “hijab” das mulheres e o aspecto decrépito da casa de férias e poderíamos estar a contemplar um quadro banal de alguns europeus em férias. E mais alguns detalhes, revelados subtilmente ao longo do filme, como a agressão de Amir à sua mulher Sapideh, em estado de desespero por não saber o que ela sabe e quanto sabe sobre o desaparecimento de Elly: o momento em que os modelos morais islâmicos falam mais alto do que a razão através dos estados de alma. O guião é magnífico: o mistério revela-se a conta-gotas e tanto nos confunde nas pistas como nos põe a adivinhar sobre o que de facto aconteceu, até que percebemos que só uma hipótese é possível: a liberdade. Tudo relevado sem facilidades e sem maniqueísmos. Para coroar, o filme tem uma outra vantagem apreciável: é um excelente “espanta-preconceitos” para quem olha o Irão do “alto da Europa. “Tudo isto estava escrito. Ninguém tem culpa.”. Urso de Prata no Festival de Berlim. Um must-see.
08/10/10
Lola
Depois de "Kinatay" e do espectáculo de horror a que ali assisti, ouvi dizer que "Lola", de Brillante Mendoza, era uma espécie de redenção do cineasta ao seu filme anterior, com os filipinos e com o público em geral. Pois para também a mim me redimir ("Kinatay" é mesmo terrível e eu gostei) vi ontem "Lola”. Não há sangue, não há esventramento, não há um espectáculo sanguinário como no anterior. Mas há ainda maior tristeza, muita água (parece que nos vamos afogar), sofrimentos e desilusões incomensuráveis. Não me senti redimido. Não me senti aliviado. Senti uma profunda angustia. Não sei se algum dia quero ir a Manila. Acho mesmo que não (curioso, parece que já conheço aquelas ruas …). De qualquer forma, percebi que Brillante Mendoza é de uma sensibilidade superior. E isso é sempre tão raro.
06/10/10
Kinatay
“Kinatay” significa carnificina em filipino e será um esventramento literal e uma lição das trevas, culminando na violação colectiva e no massacre. É este o tema do filme com esse nome, “Kinatay, Brillante Mendoza, 2009, acabado de sair em DVD. Preparem-se, é um filme para maiores de dezoito anos e uns dezoito anos muito bem constituídos, organizados e estruturados. Caso contrário, é o caos, é caso para não aguentar o “murro no estômago”.
Podia começar por dizer-se, como se lê algures no filme, que uma vez perdida a integridade é para sempre. Acredito que nem sempre, mas só porque acredito na redenção. Acredito que poderá nunca acontecer pois há lugares onde isso poderá não ser possível. E neste lugar - onde acontecem estas coisas - parece que isso não existe.
A personagem principal, Peping, vinte anos, acabado de casar, com um filho de sete meses, aceita uma oferta de trabalho para ganhar algum dinheiro no próprio dia do seu casamento, na madrugada que se segue a esse dia, e vai assistir a uma verdadeira tortura, a uma matança, a um esquartejamento, e vai mostra-nos tudo isso a nós, espectadores, que o vamos acompanhar - só vemos aquilo que os olhos dele vêem.
Estamos em Manila, num nível de extrema pobreza, onde impera o caos, o lixo, o quotidiano filipino é-nos logo mostrado como nada de muito bonito mas onde, no inicio parece, se conseguirá viver com uma certa tranquilidade e harmonia. Um casal muito jovem, feliz, com um filho de sete meses, vai casar e tudo nos parece bem. Logo depois, entramos na noite de Manila, com Peping e um grupo de policias e passamos a assistir ao verdadeiro horror. Ao longo da noite, a missão em que Peping se vê envolvido consiste em dar uma grande lição a uma prostituta. E que lição! Ela vai ser espancada, violada, assassinada com facas, esventrada, mutilada e os seus pedaços vão ser espalhados pela cidade no meio do lixo, do caos, sem que ninguém se espante muito com esse facto (alguém diz, impávido e sereno, quando descobre a cabeça da mulher: “não se percebe, nos últimos tempos só encontramos pedaços de corpos pela cidade”).
E aqui não há integridade, não há redenção, há um desfilar de actos bárbaros, sem dó nem piedade, uma frieza implacável. A excepção é a personagem principal, Peping, que não recusa a tal oferta de trabalho para ganhar algum dinheiro. Parece que ele, também ele, não se irá salvar. Ele próprio, irá ser como o grupo com quem passou aquela noite. Para ele a salvação não vai chegar, parece. Ou a chegar será de acordo com aquelas regras.
Tudo é irremediavelmente mau quando se vê este filme. É como alguém nos dissesse (neste caso, o realizador) : o mundo é mau, o mundo é muito mau, e por ser tão mau olhem para isto, vejam bem isto! Será que foi isto que quis dizer Brillante Mendoza, com este “Kinatay”, melhor realizador em Cannes 2009 ? A mim parece-me que sim. Só não sei se isso é mau ou se às vezes é bom ver que existem coisas realmente más.
“Quero que os espectadores sintam o horror dentro da cabeça do meu personagem. Quero que o sigam de perto, que observem e pensem, e se sintam realmente perturbados.”
Brillante Mendoza
05/08/10
"J´ai tué ma mère"
Depois de "Afterschool" - um filme realizado por um jovem pequeno adulto americano brasileiro de nome António Campos - outra boa surpresa: "J´ai tué ma mère", Xavier Dolan. Em vez de questionar sobre este filme será melhor vasculhar sobre o que é que vem a seguir a este, saber quem é este rapaz, estar atento a Xavier Dolan. Para já, e assim de repente, escreveu este filme com 17 anos, esteve o ano passado em Cannes com este filme na secção Un Certain Regard, já fez outro filme chamado "Les Amours Imaginaires" e recebeu vários prémios pelo primeiro. Eu gostei. Eu vou querer ver e ouvir o que tem para dizer daqui para adiante Xavier Dolan. Gosto de pessoas inteligentes. Tudo menos o atavismo que existe por aí. Diz ele que ainda não tem muito para dizer porque viveu pouco. Digo eu que já vi outros viverem alguma coisa e que não sabem dizer nada.
25/07/10
Wild Horses !
A propósito da extensão do nosso parco conhecimento, da “obrigatoriedade” inexprimível de querer conhecer muito, ou, quem sabe o muito que para outros significa nada, ou ainda, o que nós aprendemos pouco ou nada é para os outros só para nós, o que já por si importa pois tornamo-nos maiores, as coisas estão longe de ser... todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos apresentam. A maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos susceptíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte: seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efémera. Wild Horses!
Adaptação muito livre de Rainer Maria Rilke
17/07/10
Afterschool
Inquietante não saber o que é que as crianças fazem nas nossas costas. Inquietante não saber o que é que andam a fazer nas escolas às crianças. Quem são os professores? Que poder têm no que lhes transmitem? Quão distraídos ou ocupados andaremos nós? Estas crianças são os adolescentes, os pré-adolescentes, ou os não adultos. Este filme foi escrito e realizado por um miúdo americano com nome português: Antonio Campos. Afinal, o que é a realidade para estas crianças? O que é que fazem na Internet, no Youtube, no mundo virtual? O que é neste contexto uma relação verdadeira? O que é, sendo assim, a verdadeira experiência das coisas? Como é que desta forma descobrem a sexualidade? Como li algures, o que se anda a fazer aos miúdos? Brutal!
O primeiro filme de Antonio Campos é sobre a vida escolar, a descoberta do sexo, as drogas e a Internet. A história é sobre um estudante de uma das melhores escolas dos EUA que, acidentalmente, filma a morte por overdose de duas colegas suas. Como forma de atenuar o luto colectivo, a gravação torna-se num projecto audiovisual da direcção da escola. No entanto, o efeito é o oposto e acaba por criar um clima de paranóia geral entre alunos e professores.
11/07/10
“Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives”
Ontem, no Curtas Vila do Conde: “Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives” (Tio Boonmee, aquele que se lembra de suas vidas passadas). O título é muito complicado. O nome do realizador tailandês - Apichatpong Weerasethakul - impossível de memorizar ou verbalizar. No filme, Palma de Ouro Cannes 2010, dedicado pelo realizador aos espiritos e aos fantasmas do seu país, deambulam os fantasmas e os espiritos da Tailândia, o espírito de uma mulher, uns seres bizarros com muitos pêlos e olhos encarnados (os macacos-fantasmas), uma cena de sexo entre uma princesa e um bagre falante num idilico lago algures em nenhures, uma gruta útero com as personagens no interior à espera da morte no lugar onde nasceram e um final completamente nonsense. Eu não percebi o final: “eu fico aqui mas vou ali e já volto”. Decerto por não ser tailandês. Decerto pelos fantamas de Portugal vaguearem numa outra dimensão. E eu a pensar que fazíamos parte de um todo, do mesmo planeta. A Tailândia estará noutra dimensão, pronto, aceito. Curioso foi perceber a cara das pessoas (olhei especiamente para a do Fernando Lopes) completamente baralhados. Certamente a pensar: e agora “vou dizer que foi uma obra-prima ou uma grande merda”?



