10/03/10

a superficialidade dos grandes espíritos

Não há nada de mais perigoso para o espírito do que a sua relação com as grandes coisas. Alguém deambula por uma floresta, sobe a um monte e vê o mundo estendido a seus pés, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos braços, ou desfruta da felicidade de assumir uma posição invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele próprio certamente pensa que são muitas coisas, profundas e importantes; mas não tem presença de espírito suficiente para, por assim dizer, as tomar à letra. O que há de admirável, diante dele e fora dele, que o encerra numa espécie de gaiola magnética, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensação de ter esgotado todas as munições. Lá fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se começa a notar uma certa falta de substância interior, e nasce aí uma espécie de grande «O», redondo e vazio. Este estado é o sintoma clássico do contacto com tudo o que é eterno e grande, bem como da permanência nos píncaros da Humanidade e da Natureza. Aqueles que se comprazem na companhia das grandes coisas - e entre eles contam-se, naturalmente, as grandes almas, para as quais as pequenas coisas não existem - vêem a sua vida interior ser esvaziada e transformada numa imensa superficialidade.

Por isso, também se poderia ver nessa ligação às grandes coisas uma lei de sobrevivência da matéria espiritual, lei essa que parece ter uma validade bastante universal. Os discursos de pessoas em posições de destaque, que agem em mundos de grandeza, são em geral mais vazios de conteúdo do que os nossos. Os pensamentos demasiado próximos de objectos especialmente elevados mostram-se geralmente muito limitados sem o apoio desse privilégio. As causas que nos são mais caras - a nação, a paz, a humanidade, a virtude e outras igualmente estimáveis - arrastam consigo a mais medíocre flora intelectual. Esse seria um mundo às avessas. Mas se admitirmos que o tratamento de um tema pode ser tanto mais insignificante quanto mais significativo esse tema for, então estamos num mundo perfeitamente em ordem.


Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

06/03/10

hoje está tudo mais tranquilo ...


... até o mar, o Douro, a Natureza acalma e as nossas razões ainda !
Fotos da RC







27/02/10

my balcony today


A natureza tem destas coisas. Tão belo. Tão violento. Tão arrebatador. Fotos da RC







16/02/10

Um Amor de Perdição

Apesar das várias fragilidades, Um Amor de Perdição, Mário Barroso, 2009, é um filme supreendente, irascível e sem pudores. E eu gosto disso. Só por isso, e se não fosse por mais, valeu a pena, vale a pena, valerá a pena. Um filme onde se mostra um Simão Botelho sem medos, um adolescente que não reconhece a autoridade moral e a ética porque vive fora delas, a sua família não vive junta, vivem ao lado uns dos outros (com diz a sua irmã mais nova Rita Botelho). Trata-se de uma adaptação (muito livre) ou de uma inspiração do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. O livro passa pelas mãos das personagens, anunciando o mesmo final trágico de Simão Botelho e de Teresa de Albuquerque de Camilo.

Nas palavras de Mário Barroso: "Simão é um adolescente quase criança, solitário, intransigente, narcisista, destrutivo e suicidário que atrai como uma aura fatal, uma luz negra, a maior parte das pessoas com quem se cruza. Mas Teresa existe, ou é apenas uma ideia, uma imagem, um reflexo? Teresa é uma aparição. Um pretexto para uma revolta amoral e violenta".

O filme, Um Amor de Perdição, embora uma adaptação (ou uma inspiração) muito livre do romance de Camilo, centra-se na personagem de Simão que tem os mesmos traços de personalidade dos do romance. As personagens do filme gravitam à sua volta, no livro também, a única que o compreende é a sua irmã mais nova, a que o apoia ainda é a sua mãe (excelente Ana Padrão). A diferença, sim ou não, é que mais do que uma história de amor trata-se de uma história de violência e de inconformismo. Simão amou, perdeu-se e morreu amando? Ou, existe apenas o seu desregramento, a sua destruição, o seu suicídio narcisista? A submissão é uma ignomínia. A ignomínia é uma indignidade. O que pode levar às maiores atrocidades. Como perdermos a alma, o que não é tão pouco. É só tudo o que não podemos perder.

10/02/10

02/02/10

"Tystnaden"

Se não há escrita, para já, "Tystnaden".

29/01/10

sem restrições

Felizmente, e assim nos permite a liberdade de expressão, a nossa escrita transparece aquilo que somos, o que queremos mostrar, as nossas emoções, as nossas intenções. Sem oposição ao escrito no texto que antecede o presente. Obviamente. Porém, em conjunto, teremos de alterar a forma, a descrição, em como o blogue foi até aqui apresentado. Brevemente. A essência dos "contribuidores" não sofrerá quaisquer alterações. Mau seria. Depreendo que o convite foi aceite; prevejo que a discussão acontecerá. Fico feliz, a adrenalina faz parte da minha vida. Fico feliz, os debates sempre me agradaram.

Declaração de interesses

Tenho a profunda convicção, de uma forma que dispensa qualquer racionalidade (isto é, independente de qualquer construção ou opção moral ou ética), de que a escrita emotiva só é válida se a cada frase que se escreve pode transparecer uma qualquer emoção repetível, como um insight, por parte de quem lê. Aceitemos como pressuposto irrecusável que a criação que não permanece inédita é, por essência, um acto narcísico, dirigido à atenção de quem lê; paradoxalmente, impõe o nosso próprio pudor - ou seja, precisamente o mesmo narcisismo que nos impele a mostrar a terceiros aquilo que criamos - que nos abstenhamos de falar de nós. Perdoem-me, por isso, esta opção narcisíca: (in)confidências não é comigo.

Lá teremos de bipolarizar o leit-motiv deste blogue.

27/01/10

ano novo, blogue novo

Este blogue passará a ter, dentro em breve, a colaboração de uma outra pessoa. Nessa sequência, proceder-se-ão a ligeiras adaptações (nomeadamente, quanto ao título e à sua descrição) já que passará a ser partilhado e a linha editorial (penso eu de que) sofrerá modificações. Continuarei, da mesma forma, a revelar segredos transmitidos em confiança. A Ilustre pessoa convidada fará como entender. Aqui há liberdade de expressão. Não quero deixar de sublinhar que a pessoa em questão é/foi uma "blogueira" de excepção. Sê bem-vinda! Este blogue passa a ser (também) teu.