12/09/08

muneras



A barbárie continua, cada vez mais acentuada, cada vez mais degradante. Receita para audiências televisivas. Simples. Rápido. Eficaz. Quanto mais alguém é humilhado publicamente tanto mais as audiências sobem. Quanto mais filhos-da-puta, melhor. As pessoas gostam de ver as fraquezas alheias. No Coliseu de Roma assistiram, tempos idos, a barbáries semelhantes com o resultado morte. Pouco falta para isso.


Um tipo, muito tipo, a sua mulher, o irmão mais novo e o melhor amigo. Juntamos a Teresa Guilherme, 21 perguntas escabrosas a fazer ao tipo muito tipo, um polígrafo, as câmaras a filmar e dinheiro em jogo até duzentos e cinquenta mil euros. A mistura é explosiva, estamos em plena arena do Coliseu, vai haver sangue. Tudo em patamares até atingir os duzentos e cinquenta mil euros, com perguntas atrás de perguntas, todas adequadas ao perfil do tipo muito tipo, quanto piores melhores. O resultado é um espectáculo de terror inqualificável, obsceno, ficam todos completamente a nu, todos os seus segredos vão ser conhecidos. Os cérebros daquelas pessoas vão ficar reduzidos a nada e expostos a tudo e a todos. Quanto mais escabrosa for a pergunta mais contente fica o tipo muito tipo porque vai arrecadar mais uns euros. E o resto da pandilha bate palmas. Biltres! Não se pode mentir, o polígrafo acusa, mas se o concorrente mentir a verdade também é revelada. Mas o tipo muito tipo é coerente, responde sempre a verdade! Ficamos a saber que o tipo muito tipo acha a mulher uma verdadeira chata, que o irmão aos olhos dele é um incapaz, o seu melhor amigo não pode confiar nele pois ele despeja tudo aos outros, é um aborrecimento para ele brincar com a filha pequena, as suas aventuras sexuais são fotografadas e exibidas aos amigos, vai fodendo umas quantas gajas desconhecidas e não usa preservativo, vai deixando uns euros em bares de alterne mas tem muito respeito pelo dinheiro (e pela mulher), embebeda-se e vai trabalhar, enfim, não vale a ponta de um corno mas é muito feliz assim. E mais, mais e mais. O tipo muito tipo desiste quanto lhe faltam responder apenas a três perguntas. Ensaca vinte e cinco mil euros, podia ganhar duzentos e cinquenta mil. Afinal, depois de se ter exposto de forma tão vil o que é que o fez desistir? O tipo muito tipo conclui que não quer continuar por respeito a si, à sua família, dizendo que é o mais importante que tem na vida. E chora, claro. É um tipo muito tipo sensível.



Combates entre gladiadores, chamados muneras
Coliseu de Roma
Anfiteatro Flaviano

08/09/08

Mamma Mia!


"Eu não gosto das músicas dos ABBA mas ..., o filme é hilariante".

Esta é a frase mais comum, a que mais se lê, nas críticas ao filme Mamma Mia! Também, a mais preconceituosa e a que menos traduz o espírito do filme. Pois, se o filme (ou o anterior musical) mais não é do que uma paródia às próprias músicas do grupo sueco (autorizada pelos próprios) ! É um super musical, um super filme, um super divertimento, com uma mais do que super Meryl Streep. Aplausos, e mais aplausos, Dancing Queen ou iééééé !

07/09/08

Raquel Oliveira

















Ontem, ofereceram-me três belos quadros. Não é todos os dias que nos fazem estas surpresas. Estão na sala, vai um para o escritório. Ainda mais, agradeceram a oferta, eu é que estou mais do que grato. É bom saber que gostam de nós. Gosto dos quadros, da artista e da família. É para mim, também, uma honra tê-los como amigos. É para mim um prazer poder observar os quadros todos os dias. Obrigado.

Bonjour Tristesse



Bonjour Tristesse
Otto Preminger, 1958

Jean Seberg
Belo (a), melancólico (a). Tristeza e solidão. Às vezes é assim.

05/09/08

três livros em Menorca

Menorca é uma ilha branca e com um mar azul de todas as tonalidades. Domina o turquesa, o mais bonito dos azuis no mar. Além do resto, foram três livros, três portugueses, que me permitiram vaguear por vários sítios de Portugal com estadia em Espanha.

O Vasco, o que mais gostei. O Bastos, o menos mais. O valter, curiosidade minha, li uma entrevista no “Expresso”, o mais menos. Escreve-se mesmo assim, valter, com letra minúscula, aliás, bem como o livro.

O Vasco Graça-Moura escreveu um livro belíssimo, Por Detrás da Magnólia, que li em Menorca e que me fez viajar para o sítio exacto de onde eu tinha partido: a Foz, a do Douro. E por mais terras, pelo Douro acima, e por pessoas, por gentes, por outros locais que tão bem conheço. É impressionante o que faz um poeta, neste caso o Vasco. Transporta-nos para os locais, descreve-nos as pessoas, como se estivéssemos lá, como se as conhecêssemos. Sentimos os ambientes, os cheiros, todas as alegrias, todas as angústias. Ainda por cima, no meu caso, que tão bem conheço aquelas ruas, aqueles locais, o Jardim do Passeio Alegre, a Meia-Laranja, o rio, o mar, a união dos dois, os eléctricos a percorrer a marginal do Porto, as expressões típicas daqueles que sempre viveram na Foz, tocou-me particularmente. É um romance, magnifico, poético, que me fez sonhar com outros tempos, anteriores ao meu, numa época em que a Foz deveria ser mesmo um lugar especial. Ainda me lembro da Foz bem diferente da de hoje. Rural, muito rural, não como agora. Ainda é especial, ainda cá estou, ainda sinto o rio e o mar ao pé. Continuo a adormecer com o barulho do mar e o farol a avisar. Continuo a sentir o cheiro a maresia. Continuo a querer ficar aqui.

O Baptista-Bastos, confesso, li o primeiro livro, Viagem de um pai e de um filho pelas ruas da amargura. Já tinha vagueado por outros escritos de Baptista-Bastos mas nunca em romance. Não achei belíssimo, nada semelhante, pareceu-me amargo, triste e forçado. Ode à amargura, à tristeza, escrita muito precisa, pareceu-me demasiado pensada. Mas, as personagens comovem, a viagem do pai e do filho transtorna o nosso espírito. Lisboa é o local, as personagens deambulam pelas suas ruelas e conversam numa taberna. É triste, muito triste. A personagem do pai nunca está ali, inventa sempre outros locais onde preferia (ou não) e acredita (desacreditando) ter estado. O livro fala do amor, da morte, de solidão, de amargura e de forte resignação. Urbano Tavares Rodrigues refere que se trata de uma obra-prima. Um livro sublime. Eu não senti isso. Eu só vi um grande esforço na criação de um livro diferente. Não fiquei convencido (nem precisava de ficar, claro).

O valter hugo mãe é o mais menos dos três. O livro o apocalipse dos trabalhadores não me pareceu quase nada. Pareceu-me minúsculo, como só as minúsculas no livro utilizadas. As personagens, mulheres-a-dias, um reformado, um jovem ucraniano, tudo à toa numa cidade do interior, em Bragança. A acção lenta, pegajosa, desalento, tristeza, tudo numa escrita escorreita mas sem fulgor nenhum. Sentimo-nos perdidos, sós. Portugal com imigrantes a mais, as gentes de Bragança perturbadas com essa incursão, os imigrantes também. Há alguma emoção. As personagens sentem-se todas sós, todas sem rumo, ou as que vivem no seu país ou as que vivem num país estrangeiro. Não vi mais nada. Só isso. Às vezes costumo ver muito pouca coisa.


Foz



A Foz do Douro.
Lusco-fusco belíssimo.
O melhor local do mundo.
O meu canto.

Porto


Torre dos Clérigos - ao fundo.
O Porto, cidade antiga, cidade a precisar de alguns restauros.
A minha cidade.

03/09/08

rewind de um ano exacto (qui raro, foi sem querer) e desculpas


Causar dor a outra pessoa, de uma forma frontal, ou só pelo nosso porte, ou por quaisquer outros motivos, é algo insuportável, vil, abjecto, ignóbil, medonho, infame, e outros mais sinónimos, que só pode, só deve, causar a quem dirige essa dor uma maior dor a si próprio. É intolerável pensar que alguém sofre porque lhe dirigimos a dor que sentimos intimamente em nós. Fazer sofrer, de qualquer forma, além de intolerável para o outro, é-o ainda mais para nós, também, pelo egoísmo, pelo egocentrismo, intrínseco a cada um (não querermos dor por o outro estar a sentir dor é uma forma de purgar a nossa própria dor). Mas não deve ser por isso, pelo egoísmo e egocentrismo, que devemos sentir dor por causar dor, mas sim pela grandeza de pensar que causar dor nos torna almas menores, seres desmedidamente inferiores, corpos de punição e não de redenção. E nós não somos só corpos, somos muito mais pessoas.
3 de Setembro de 2007

querido mês de Agosto

Anteontem ouvi, vi, uma reportagem qualquer, daquelas entre-férias-fim-de-férias-enche-chouriços-puta-que-as-pariu, que passam nas nossas televisões, isto porque, pouca coisa acontece durante o tão ... querido mês de Agosto. Refiro-me a notícias, sobre a angústia de voltar ao trabalho, a crise que se instala nas brilhantes inteligências colectivas (e comuns, segundo a reportagem), sobre a grave opressão de enfrentar mais um ano de trabalho, mais um árduo ano que se acerca, a pensar no Agosto seguinte, a pensar nas próximas férias, a pensar na angústia que teremos daqui a um ano quando regressarmos das férias futuras. As angústias são de cada um, cada um as enfrenta como quer e como pode. Ouvir que as angústias existem é como afirmar que os pássaros voam. Preferível dar uma espreitadela nisto. Parece bem mais interessante. Entretanto, queria falar do Vasco, do Bastos e do valter e ainda não tive vagar. A angústia do retorno deve atalhar. Foda-se!

01/09/08

...



O Recreio

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...
E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...
Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro